segunda-feira, 23 de maio de 2022

O problema alarmante do uso de banheiros químicos no Brasil

O uso de banheiros químicos tem aumentado consideravelmente na nossa sociedade, seja em eventos, lugares públicos, locais de trabalho móveis (regiões afastadas). Como se sabe, os banheiros tem uma cabine plástica com vaso sanitário e um tanque de armazenamento, o qual possui capacidade entre 180 e 280 litros. Para manter a água residuária no tanque de armazenamento por longos dias sem apresentar forte odor, as empresas utilizam substâncias desodorizantes. A função principal desses desodorizantes é a inibição da atividade microbiana, minimizando a liberação de maus odores que seriam gerados no próprio tanque de armazenamento. Para efeitos de compreensão, imagine o acumulo de fezes e urina no vaso sanitário de uma residência qualquer, em poucas horas certamente haverá um forte odor em todo o ambiente. Por outro lado, nos banheiros químicos, por mais que haja um forte acúmulo de dejetos (fezes, urina, vômitos, etc.), ainda assim o odor é atenuado, devido a ação desses fortes reagentes químicos utilizados.


O grande problema está justamente na composição química desses desodorizantes. Estes produtos possuem em sua composição surfactantes, essências aromáticas e corantes, além disso, os desodorantes possuem compostos ativos de elevada toxicidade que atuam justamente na inibição microbiana no tanque de armazenamento, sendo usualmente utilizado o formaldeído e o bronopol. Além das substâncias mencionadas, os desodorizantes ainda podem conter em sua composição outros tipos de compostos químicos tóxicos e nocivos à saúde e ao meio ambiente, tais como álcool etílico, hipoclorito de sódio, ácido dodecil benzeno sulfonato de sódio, cloreto de benzalcônio, nonil fenol etoxilado, propilenoglicol, sulfato de magnésio e glutaraldeído. Este último, também conhecido como fluído de embalsamento, pode ocasionar grave irritação nos olhos e nas vias respiratórias.

Os compostos formaldeído e bronopol são apontados como os princípios ativos mais utilizados na formulação de produtos desodorizantes, principalmente por seu baixo custo de aquisição e poderosa inibição da atividade bacteriana (POE, 2000). O formaldeído possui elevada solubilidade em água, o que faz com que ele seja rapidamente absorvido no trato respiratório e gastrointestinal, e consequentemente metabolizado pelo corpo humano. Tal substância é tóxica se ingerida, inalada ou tiver contato com a pele, podendo ocasionar irritação na pele e mucosas, com comprovada ação cancerígena associada a câncer no pulmão, cérebro e leucemia. O bronopol, por sua vez, pode causar severos efeitos aos seres humanos via rota dérmica.

No Brasil, a ANVISA é o órgão responsável pelo registro e notificação dos produtos saneantes antes de sua comercialização. A ANVISA, através da Resolução RDC nº 35 de 3 de junho de 2008, proibiu a utilização de formaldeído em qualquer concentração e restringiu o uso de bronopol na concentração máxima de 0,1% em relação a sua massa, nos produtos saneantes fabricados e/ou comercializados no Brasil. Infelizmente, boa parte dos desodorizantes para banheiros químicos comercializados no Brasil (nacionais e internacionais) possuem formulação secreta protegida pelo código de regulação federal, ou seja, as FISPQ não contêm todas as informações necessárias para a caracterização deste tipo de produto. Portanto, fica impossível determinar com precisão a ausência de compostos tóxicos na formulação desses saneantes.

Outro grande problema relacionado ao uso dos banheiros químicos, além da notável toxicidade de alguns sanitizantes à saúde humana, refere-se ao tratamento dessa água residuária. Vários estudos mostraram alguns sanitizantes são tóxicos para os sistemas de tratamento de esgoto convencionais (sistemas biológicos). Estudos relataram a redução da comunidade bacteriana presente nos sistemas de lodo ativados após contaminação com bronopol, ocasionando um déficit na decomposição de vários componentes químicos pelas bactérias nesses sistemas (DEBOWSKI et al. 2011). Além disso, o bronopol é facilmente convertido a formaldeído, que, como mencionado, é um composto com propriedades carcinogênicas.

Outro composto muito utilizado, glutaraldeído, também foi avaliado como altamente tóxico para o sistemas de tratamento. Ainda podem ser encontradas em outras formulações diferentes variações do formaldeído, sendo elas: formalina e o paraformaldeído (formaldeído polimerizado), que além de tóxicos à saúde humana, também agem no retardamento do crescimento bacteriano, ocasionando a ineficiência nos sistemas de tratamento de esgotos (POE, 2000). Segundo a USEPA, efluentes de banheiros portáteis geralmente chegam às estações com concentração orgânica muito elevada quando comparada com a do esgoto doméstico típico, podendo comprometer o processo de tratamento desenvolvido nessas unidades. Esse impacto é ainda maior em ETE menores.

Os problemas citados nesse documento, vão além das águas residuárias de banheiros químicos, englobando também efluentes de banheiros de aeronaves, navios e quaisquer sistemas que utilizem sanitizantes/desodorizantes que possuam em sua formulação, compostos tóxicos para a saúde humana e para o sistema biológico de tratamento (sistemas convencionais de tratamento de esgoto). Considerando a baixa especificidades das FISPQs desses produtos, é impossível afirmar com segurança, a ausência de compostos tóxicos.

Devido à elevada toxicidade, tem sido relatado que esses compostos atuam como forte inibidor dos microrganismos envolvidos na degradação aeróbia e anaeróbia. Hovious et al. (1973), relataram que os efeitos tóxicos podem ser detectados em concentrações muito baixas de formaldeído, ainda concluíram que bactérias anaeróbias podem usar formaldeído como o único substrato, no entanto, levou-se o período de quatro meses para obter tal consórcio em que foi verificado uma atividade muito baixa do lodo anaeróbio. Lotfy e Rashed (2002) para verificar a biodegradabilidade aeróbia de formaldeído em águas residuárias, observou-se que nove dias seria um período conveniente para se chegar a índices satisfatórios de biodegradação.

Diante desse cenário, não é adequado que as águas residuárias desses sistemas sejam destinadas para sistemas de tratamento de efluentes convencionais sem um estudo prévio que demonstre a capacidade de tratamento, pois, caso esses poluentes não sejam devidamente removidos na ETE, estes serão lançados em corpo receptor, ocasionando elevados prejuízos ambientais, além de potenciais problemas para saúde da população abastecida pelo manancial.

Portanto, recomenda-se a avaliação técnica minuciosa dos produtos desodorizantes utilizados nos banheiros químicos, realizado por técnico competente, se possível, com testes de biodegradabilidade em laboratório.

*Silvio Rollemberg | silvio.rollemberg@ifce.edu.br
Engenheiro, Doutor em Saneamento. Professor e Pesquisador na área de Saneamento Ambiental. Possui várias publicações em periódicos nacionais e internacionais. Atua como revisor de conceituadas revistas. Eleito Secretário na ABES-CE. Possui patentes e várias pesquisas no ramo de tecnologias de tratamento de águas e efluentes.

O problema alarmante do uso de banheiros químicos no Brasil

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